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24/04/2011

Três anos depois

Voltando aqui, na surdina, só por nostalgia, e pra fazer eco ao que vi no arquivo do blog das perguntas


Meu maior pecado é retardar a urgência da poesia?

“Os poemas que não tenho escrito
                                                   porque
trabalhando num banco me interrompiam a toda hora
ou tinha que ir à venda e à horta
                      — quando o poema batia à porta,

os poemas que não tenho escrito
                                                 por temer
descer mais fundo no escuro de minhas grotas
e preferir os jogos florais
                 de uma verdade que brota inócua, 

os poemas que não tenho escrito
                                                porque
meu dia está repleto de alô como vai volte sempre obrigado
e eu tenho que explicar na escola o verso alheio
quando era a mim próprio
                                     que eu me devia explicado,

os poemas que não tenho escrito
                                                porque gritam
ou cochicham ao meu lado
                        ligam máquinas tocam discos e ambulâncias
passam carros de bombeiro e aniversários de criança
                                   e até mesmo a natureza solerte
se infiltra entre o papel e o lápis
                          inutilizando com sua presença viva
                         minha escrita natimorta,

 os poemas que não tenho escrito
                                                                    porque
na hora do sexo jogo tudo para o alto
e quando volto ao papel encontro telefonemas e prantos
a exigência de afetos, planos e reencontros
me deixando lasso o pênis e um remorso brando no lápis.”

Trecho de Os Poemas que Não Tenho Escrito, de Affonso Romano de Sant’Anna


Escrito por Débora Ferraz às 16h35
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16/02/2009

Título provisório: Uma prece pelo estrago

Cada pessoa tem um objetivo na vida. Uns querem tornar-se doutores, outros querem um casamento com filhos e a felicidade em doses homeopáticas. Outros querem uma casa de praia, ser famoso e dar autógrafos. Todo mundo tem um objetivo. O meu, era tatuar o corpo inteiro.
_Isso não é objetivo de vida.
_Como não?
_Porque é...  ora, é como se o objetivo fosse "ver neve"
_Ué. Não é fácil pra quem nasce no Brasil e não viaja.
-Mas a questão não é essa.
_Você? Qual o seu objetivo de vida?
_Eu quero ser escritor.
_Grandes coisas.

Eu sabia do que ele estava falando.  A velha questão do "e depois?". Sim eu sabia, mas era mais fácil discutir.

 

Abri a porta trincando os dentes de dor. O sol devia estar a uns mil graus celsius. Tive medo de fritar na rua. Olhei para o sujeito ao meu lado e quase consegui ouvi-lo responder a uma repórter qualquer quando:
"Como aconteceu?
ah... foi estranho. Ela vinha andando do meu lado desde a esquina, e desde o começo vinha saindo uma fumaça da barriga dela. Coisa mais bizarra. Achei que fosse pegadinha. Sair fumaça pelo umbigo só podia ser pegadinha. Aí me aproximei e escutei um tssss... percebi que ela estava revirando os olhos.
E você não fez nada?
Claro que não. Foi muito estranho.  A gordura do corpo ia saindo pelos poros, quando dei fé, ela estava fritando.
Pessoas na rua ficam traumatizadas."

Tenho que parar de pensando besteira. Pessoas não fritam.
Entrei querendo ir direto para o banho. A região tatuada ainda doía muito. Passei direto pro banheiro.
_Babi?
_Oi, mãe.
_Não tem almoço.
_Não, mãe. O moço vem deixar mais tarde, lembra?
_Que moço, Babi?
_O moço do almoço.
Ela riu. Ela ria disso todo dia.
_Seu pai não chegou pra almoçar?
_Não.
_E a gente vai almocar sem ele, Babi?
_Agente chama o moço pra fazer companhia.

Entrei debaixo chuveiro com alívio. Aliviava mas, ao mesmo tempo, ardia.

As vezes, essa vida arde. Não chega a ser incrível mas não deixa de ser estupendo.
Afinal, todo mundo tem a ilusão de que vai se salvar um dia, não é?
Se salvar dos empregos, se salvar de virar mendigo, salvar o coração das tragédias de mortes, abandonos e dos outros.
A gente quer se salvar dos outros.
A gente pensa. A gente quer mesmo e se salvar de si mesmo.
Se salvar da família da gente, da infância da gente, dos complexos da gente.
Eu só quero me salvar do esquecimento.
Eu já estava salva desde o começo.

 

* AVISO: Isto é um pedaço aleatório da história que estou escrevendo. Quando ficar pronta, posto tudo. Ou não


Escrito por Débora Ferraz às 04h23
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07/02/2009

Relatos de uma expedição

Aqui as pessoas sentam e espreitam aos batentes, do lado de fora de casa. Vendo as pessoas passando, os carros passando, a vida passando.
Elas passam.
A mão apóia o queixo, os olhos nem se abrem por inteiro. Esperam, espiam.
Esperam um marido, um circo, uma chuva, uma pessoa pra dizer oi e acenar de longe. Todas as possibilidades de vida em um desfile sobre o tédio.

As moças esperam. Na calçada, comportadas, de pernas cruzadas. Viria um marido? Seria por isso?
Dissimulam.
Não.
Não é por isso que esperam.
Esperam mais.
Se esticam e olham no fim da ladeira pra ver se nela vem subindo um bloco, uma ala, um arrastão, um furacação que as leve dali pra longe, que arranque todas as promessas, que acabe com aquerle mundo, que elas se desgarrem, se desamparem e sejam levadas junto com o arrastão apocalíptico. Que puxem de vez e pela raiz, as moças dos batentes, esse furacão. Que se arranque as moças das calçadas antes que chegue primeiro um marido, uma casinha, um comércio e crianças famintas.

Esperam sentadas com as velhas.
As moças vigiam os furacões, as velhas vigiam as moças.
Elas que também já tanto esperaram. Uma anunciação vem ao longe. As moças endireitam a coluna. Seria agora? As velhas preparam as algemas. Será agora? Todas as gerações já esperaram este fenômeno.

As velhas vigiam as moças.
Proibem os movimentos. Não seria justo, afinal, as velhas tiveram que ficar velhas. Impedem as filhas, o mote está armado.
Velhas vigiam as moças.
As suas, as dos outros. As moças vigiam a rua com os olhos atentos, dedos cruzados, marcando corrida espremidas pelos olhares assustaos. Será agora?

Uma fumaça sobe a ladeira. As velhas seguram as moças pelas raízes. As moças gritam.
_Eu vou junto com a fumaça!
Mal conseguem fazer poeira, coitadas. Se fosse um furacão, ao menos. Tantos anos de espera por um apocalipse e o máximo que me acontece é um fumaceiro besta. Será isso? Não importa. É o melhor que há. As moças tentam atirar-se à fumaça. O único jeito de não ficar entre Deus e o diabo.. As velhas seguram, machucam apertando. As velhas precisaram esperar muito e o máximo que ganharam foram as rugas e atrites. Se agarram todas em corrente.

E a poeira dissipa.
Ninguém vai se mover, ainda... Vai ver é esperar mais.
Sobrinhos passam, as filhas alheias namoram, bebês paridos passeiam pela rua. A vida alheia numa banda marcial sem cores. As moças apoiam as cabeças nas mãos sem poder mover-se. As mulheres viram besouros na luz, aos batentes. As tias gritam eufóricas. E esperam...

Esperar um vento... esperar uma chuva... esperar o circo... esperar a morte... 


Escrito por Débora Ferraz às 22h07
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08/12/2008

Agora que eu não estou ligando para a qualidade do texto...

 

Para cada pedaço de momento que se passa, uma dúvida. De todas as coisas.

Das horas, das cores, das escolhas, da comida e pra quê?

Se a única coisa certa é que estaremos de volta ao começo. Se estamos sempre nos preparando para começar?

Já passou do meio dia no relógio da vida.

Façam silêncio. Ninguém respira!

Todo o cuidado é pouco para que o momento não escape.

_A senhora vai querer mais?

_Sim, eu quero mais. Traga bem mais e sente aqui.

 

O toque do telefone profoca angústias na madrugada. Pode ser qualquer um

Os olhos reviram.

Eu tenho levado uma vida que não é minha. Eu tenho falado muito sobre tudo o que não sei e fico querendo ir embora de mim mesma.

E não adiantaria ter placas informando o caminho

Porque, só, eu não ia querer chegar mesmo.


Escrito por Débora Ferraz às 11h58
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02/12/2008

O poder máximo que temos é o de abrir mais e mais feridas

Feridas sagradas, profanas, estáticas, doídas

Feridas são atos-limite. São poemas incuráveis e cicatrizes que não estancam

Ninguém cura nada, ninguém se cura de nada

Não é possível viver impunemente

Não há como voltar atrás, são atos irremediáveis, paixões, nós na garganta

São gritos desesperados, abertos,

Não há paixão que seja inocente.

Paixão é culpada.


Escrito por Débora Ferraz às 12h36
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26/11/2008

O tempo me consome

Um minuto de descuido vira um dia perdido.

Em arrependimentos vorazes, coloridos tenebrosos. Um dia perdido e uma vida já se foi.

Várias das minhas vidas qubrando em cacos. Piso nos cacos. Sangro. Sujo todos os ponteiros e o tempo em círculos imperfeiros

 

O tempo me devora em bocas grandes e deliciosas

O arrepio sobe à espinha

Desses dias que se perdem, que me perco em corpos brancos e uma existência toda passada à sujo.

Mãos salientes me abraçam, me envolvem. É o tempo.

O tempo corre, vai embora, me desertifico, ele me abraça. Dissolvo. os ponteiros voam, me beijam em ampulhetas.

 

O tempo me esquece...

        Perdida nos moinhos de frases

        _Meus tênis não pisam

O tempo me deixa e me fere em lanças

Ele escoa  entre meus  dedos. As vidas perdidas viram absurdos imensos.

Tendo dentes.

Mas como tudo o tempo acaba.

E isso não chega a ser um alívio.


Escrito por Débora Ferraz às 17h39
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14/10/2008


Escrito por Débora Ferraz às 12h29
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A bolha

é impressionante, mas quando eu menos espero espelho a bolha está lá.

Não que eu me importe, mas acho que é uma observação pertinente. Deus me livre de ninguém saber, é que foi herança de família e dessas coisas a gente não se desfaz. Porque, você sabe, iam começar a achar graça. Liliana mora com uma bolha. Conversa com uma bolha. E às vezes até se alimentam mutuamente. De jeito nenhum. Iam me chamar de doida. Maluca. dizer que andei bebendo demais. Melhor deixar assim. A bolha aqui quieta, e a gente se entende nos nossos silêncios.

Silenciosa mesmo, essa bandida. Pra você ter uma idéia, quase sempre esqueço que ela existe. às vezes esqueço por meses, e por até anos não a vejo, mas hoje, por exemplo, cheguei em casa e ela era imensa dançando no meio da minha sala.

Aí lembrei, mas também não disse nada. Passei direto para o quarto e só fiquei ouvindo o tum, tum, tum do chão tremendo. Bem-feito pra mim. É Nisso que dá.

Cor-de-rosa. Sim, assim mesmo. Parecida com bola de chiclete ploc, meio transparente e tal... se olhar direito, dá pra ver o que tem dentro dela, mas eu não gosto muito de encará-la porque ela fica meio constrangida, meio murcha. Aí vai ficando opaca e não dá mais tempo. Uma vez, consegui ver dentro dela um amigo meu. Ele estava sumido fazia era tempo. Pois estava dentro da bolha. Não parecia muito confortável, na verdade. Ficava inerte e fantástico. Tinha outras coisas que consegui detectar: bibelôs de porcelana, rabiscos, três refrôes de música de elevador, uns objetos pontiagudos, um bebê peladinho...

Da primeira vez foi assim. Eu devia ter uns dois anos, tava brincando com a mangueira e quando minha mmãe se distraiu apareceu essa bolha por trás dela. Apontei. Olha, mamãe. Passava umas fases que eu ficava toda desconfiada, toda metida a espertinha, quererendo saber de onde vinha. Espreitando a danada. Mas a gente cresce e aprende a conveviver com mistérios.

Pode parecer bobagem, eu sei, e talvez seja impressão minha, mas acho que ela está cada vez maior.


Escrito por Débora Ferraz às 12h24
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22/08/2008

 

Os estudiosos dizem que a duração do dia hoje não é mais a mesma duração de há dez mil anos atrás. Alguma coisa a ver com um fator de origens gravitacionais, a terra girando mais devagar... o dia hoje é mais longo que antigamente.

Eu discordo. O meu está é ficando mais curto.

Nascida no Brasil, sou desconfiada por vida. Tem alguém embolsando minhas horas. Será que até nisso os políticos andam metidos? Abrir uma CPI, Urgente, ou levar a causa ao Procon?

_Moço, eu vim aqui prestar queixa pois estou me sentindo lesada.
_Pode falar...
_É que disseram que os dias, hoje, têm mais horas disponíveis para todo mundo. mas não recebi a promoção. Pelo contrário. Acho até que estão inflacionando os meus.
_Hã?
_Os meus dias deviam ter vinte e quatro horas, cada. mas tenho certeza de que eles têm, no máximo, estourando, umas 18h e uns minutinhos quebrados.

Mas eu juro que ainda vou postar com mais freqüência. Está aí a mostra de teatro e dança e eu não vou deixar por menos, combinado?


Escrito por Débora Ferraz às 11h04
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11/08/2008

As horas andam devagar enquanto os dias correm loucos. Ainda assim, casam-se. Numa união desencontrada. E desde que o mundo é mundo, desde que somos seus filhos,  pressentimos a aparição de algo, mas não sabemos o que é.

Ou será que sabemos?

 

 

A vida corre, a gente seca (Árvores que enraizaram no concreto) e é hora de correr.

Do progresso que chegou tarde.

   Do fim que já era morte.

       Dos precipícios que já eram poucos.


Escrito por Débora Ferraz às 16h30
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01/08/2008

_Pára, só por um minutinho, e olha pra lá.

_Pra onde?

_Bem ali. Tá vendo?

_Não. Onde?

_No meio.

_Meio de quê?

_No meio entre você e o mundo.

Respirar fundo.

_São só reflexos.

_E você queria mais que isso, pra quê?


Escrito por Débora Ferraz às 16h02
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29/07/2008

Primeiro é preciso aprender a chorar em alfabeto. Ai, meu Deus, olha o desespero: são só umas poucas letras. E claro, depois rasgar tudo, porque não era letras que eu queria, não eram palavras que deveriam ter nascido. Genocídio. E raiva, muita raiva.

 

É preciso experimentar uma espécie de urgência. Diárias doses destiladas de tudo o que o meu ônibus vai furando, penetrando como se eu pudesse voar. Olha só a ingenuidade. Deve ter sitdo culpa do crime. Sim, foi isso. Só pode ter sido o crime. Bebo mais. Pelo menos assim não preciso usar os dentes que, podres, esfarelaram.

 

A bebida indigesta, os cacos de dentes engolidos por descuido, o que o ônibus cortou. Se você soubesse como tudo isso fermenta quando está junto... Incomoda. E não é só a mim. Eu choraria se pudesse, juro. Mas é tão confuso. Quando menos espera a gente acha que tudo está criando braços: os copos, os alfabetos, meus irmãos, minha vida. Fingem que me abraçam quando, na verdade, me estrangulam.

 

Porque não eram palavras que eu queria. Palavras são presas num papel, palavras não voam, não se beijam. E é preciso de algo que voe e se beije. Nesses tempos, nada é mais importante.

 


Escrito por Débora Ferraz às 12h36
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28/07/2008

 

As fadas estavam plantadas no vasinho. Algumas cresciam bonitas e voavam baixo presas pela raiz, a terra alimentava todas e nos alimentava juntas. Eu e Gertrudes, espremidas nos dias do calendário a gente fala sussurando. Faz mais de um mês que Dorge deixou a gente aqui com as maldições mais bestas. A gente se debruça uma na outra, olha em volta, olha pro céu. O tempo passou em círculos dessa vez. As fadas retorcem, as folhas secam.  As fadinhas esquecem de respirar, a gente vai estendendo a língua. Escorrem as gotas de mel da boca de Gertrudes. Pingos delicados. Entra, linda, que já vai chover. Tem feito tanto vento que até as verdes acabam sendo arrancadas, as fadas não secam mais. Elas assopram formas imaginárias no ar, através delas a gente caminha pra encontrar os pertences.

Gertrudes também não se importa, já aprendeu a conviver com mistérios_ idosas nós duas_ e juntas, nem chegamos a ter trinta.


Escrito por Débora Ferraz às 17h26
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12/07/2008

 

Eles nunca lembrariam de desobedecer”

Clarice Lispector

 

 

 

Quatro histórias

 

Essa história começa assim: Minha mãe havia esquecido o cigarro aceso e eu não conseguia apagá-lo. Ela fuma desde muito antes de eu vir ao mundo. Eu não. Eu detesto cigarro.

 

Segue-se que o cigarro estava aceso perto de mim. No chão. E é claro que o cheiro ruim estava me dando dor-de-cabeça. Veja você: Um cigarro inteirinho com a brasa bem vermelha. Puta que pariu. Como é que, infernos, ela me deixa aqui com esse cigarro inteirinho? Por que não fumou logo essa droga toda? Dou me ao árduo trabalho de consertar o mal-feito. Será que ela pensa que essa merda é incenso que a gente deixa queimar inteiro, assim, por nada? Mas veja você: Eu não fumo. Eu não sei apagar uma porra dum cigarro.

 

A segunda história é a seguinte: Tocava Cartola. O mundo é um moinho. Eu pensava displicente em algum filme do Denzel Washington. Acho ele dentuço. O Denzel, não o Cartola. Repare na intimidade com que chamamos os atores de Holliwood. Uma dor-de-cabeça intensa começou a surgir no canto esquerdo superior da cabeça. Bem atrás do olho. Algo me incomodava. Olhei pra trás procurando o que fosse: um cigarro aceso no chão. Minha mãe fuma holliwood.

 

Puta que pariu! Será que ela não podia ter, pelo menos, a consideração de apagar essa merda?

 

_Mãe?

 

Percebo que estou sozinha em casa. Vou ter que apagar o cigarro. Então faço como vejo fazerem nos filmes. Imprenso a brasa contra o chão. O negócio entorta. Mas eu só pioro as coisas, ele não apaga. Ela fuma holliwoods porque a telelevisão dizia que era o cigarro do sucesso. Ela é sucesso.

 

Já apaguei cigarros outras vezes. Mas eram só bitucas. Ela costumava adormecer com os danados entre os dedos. Qualquer dia ia acabar pondo fogo em tudo.

 

“Quando notares, estais a beira do abismo”

É uma música bonita. Minhas esperanças vão acabar virando cinzas. Fumadas. Mas como eu estava falando, O Denzel washington. Conheço gente que morreria pelo Denzel Washington, mas nos filmes ele é quem vive se arriscando. Estou sozinha em casa com um cigarro que não consigo apagar.

 

Tem ainda uma terceira história. Ouve-se um som incomum vir do teto. Um ladrão? Se for, eu já tenho um recurso: posso suborná-lo com o cigarro. Já está aceso e tudo. Aí ele fica relaxado. Desiste de me roubar e a gente assiste filme no dvd. A gente, que eu digo, é eu e o ladrão. Não eu e você aí. Ele vai querer ver os do Denzel Washington e eu preferiria ver Amélie Paulain. Mas ele está relaxado, acabou de fumar o sucesso da minha mãe, consigo convencê-lo. Lá pelas tantas, ele diz: “ei, mas esse filme é uma merda.” Atira em mim e vai embora. Muito puto. O efeito do Holliwood havia passado e onde está o Denzel Washington quando mais se precisa dele?

 

Mas era só um gato acasalando. Não tem ladrão.

 

_Será possível que vou ter que fumar eu mesma essa bosta só pra ver se ele se acaba? Vira uma bituca e eu apago imprensando contra o chão o restinho de brasa?

 

Ela sempre esquece de fumar os cigarros até o final. Há muita dificuldade de encarar os fins. Vêm tentando ler os mesmos livros. Foi lendo-os e abandonando pela metade na prateleira. Tenho sempre que lê-los inteiros. Terminar as coisas que ela deixa pela metade. Mas fumar também é foda.

 

A quanta história inicia quando percebi: Aquilo nunca foi um cigarro.

 


Escrito por Débora Ferraz às 15h22
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08/05/2008

crônica

Do que eu também tenho medo

 

Eu tenho caminhado muito todos os dias. Agora, as coisas acontecem noutra freqüência e, pra dar tempo, eu caminho. Procuro os ônibus que vão partir rápido, salto deles, caminho mais, parto mais. Parto a cidade inteira com meu caminho. Vou picotando e cortando tudo.

 

Uma senhora me abordou hoje cedo. “Mas como você parece com minha sobrinha”. Acho um saco parecer com outras pessoas. “É mesmo?”_ finjo um interesse. Sempre é assim, afinal, vai saber se a sobrinha dela não é, de repente...

 

Eu tenho caminhado. As bolhas nos meus pés aumentam de número e eu já não as conto. A senhora parecia aflita na sua espera; por isso eu não espero, eu caminho. Dói, mas a gente esquece a dor e a aflição e um monte de coisas porque tem que prestar atenção pra cruzar a rua, para não ser vista, para escolher o caminho.

 

Também não tenho seguido o calendário lunar. Será mesmo que essas nossas escolhas são reais? A lua está nova. Eu sei porque sinto alguma coisa nascer, mas é assim... acho que, em determinado momento, a gente acaba virando silêncios. Nossos próprios silêncios. E este sempre é o momento mais bonito.

 

“Mas se parece muito. É impressionante!”_ continua a velha e passo a me questionar se eu não seria, de fato, a sobrinha da dela, mas que havia me distraído nas luas, nos asfaltos que havia esquecido de ser a pessoa certa e me ocupado, veja você, com uma vida que nem minha era. Essa vida errante. Senhoras e senhores, eu agora ia ser outra pessoa.

 

Mas não. É só que esse povo não sabe ficar quieto. Sorrio amarelo para a mulher sem saber o que se diga.

 

Digo que vamos todos virar silêncio porque não há nada que nos represente melhor  do que os momentos em que conseguimos ficar em silêncio. Cada um com a sua quietude, juntando com a quietude dos outros e sem que ninguém se apavore com isso.

 

Tenho sentado em meios-fios, beijado rostos suados, me abraçado com panos limpos. Eu tenho andado sentindo, eu tenho pensado demais.

 

Eu tenho sentido que o sentido se dá sozinho.

 


Escrito por Débora Ferraz às 15h10
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