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22/08/2008

 

Os estudiosos dizem que a duração do dia hoje não é mais a mesma duração de há dez mil anos atrás. Alguma coisa a ver com um fator de origens gravitacionais, a terra girando mais devagar... o dia hoje é mais longo que antigamente.

Eu discordo. O meu está é ficando mais curto.

Nascida no Brasil, sou desconfiada por vida. Tem alguém embolsando minhas horas. Será que até nisso os políticos andam metidos? Abrir uma CPI, Urgente, ou levar a causa ao Procon?

_Moço, eu vim aqui prestar queixa pois estou me sentindo lesada.
_Pode falar...
_É que disseram que os dias, hoje, têm mais horas disponíveis para todo mundo. mas não recebi a promoção. Pelo contrário. Acho até que estão inflacionando os meus.
_Hã?
_Os meus dias deviam ter vinte e quatro horas, cada. mas tenho certeza de que eles têm, no máximo, estourando, umas 18h e uns minutinhos quebrados.

Mas eu juro que ainda vou postar com mais freqüência. Está aí a mostra de teatro e dança e eu não vou deixar por menos, combinado?


Escrito por Débora Ferraz às 11h04
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11/08/2008

As horas andam devagar enquanto os dias correm loucos. Ainda assim, casam-se. Numa união desencontrada. E desde que o mundo é mundo, desde que somos seus filhos,  pressentimos a aparição de algo, mas não sabemos o que é.

Ou será que sabemos?

 

 

A vida corre, a gente seca (Árvores que enraizaram no concreto) e é hora de correr.

Do progresso que chegou tarde.

   Do fim que já era morte.

       Dos precipícios que já eram poucos.


Escrito por Débora Ferraz às 16h30
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01/08/2008

_Pára, só por um minutinho, e olha pra lá.

_Pra onde?

_Bem ali. Tá vendo?

_Não. Onde?

_No meio.

_Meio de quê?

_No meio entre você e o mundo.

Respirar fundo.

_São só reflexos.

_E você queria mais que isso, pra quê?


Escrito por Débora Ferraz às 16h02
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29/07/2008

Primeiro é preciso aprender a chorar em alfabeto. Ai, meu Deus, olha o desespero: são só umas poucas letras. E claro, depois rasgar tudo, porque não era letras que eu queria, não eram palavras que deveriam ter nascido. Genocídio. E raiva, muita raiva.

 

É preciso experimentar uma espécie de urgência. Diárias doses destiladas de tudo o que o meu ônibus vai furando, penetrando como se eu pudesse voar. Olha só a ingenuidade. Deve ter sitdo culpa do crime. Sim, foi isso. Só pode ter sido o crime. Bebo mais. Pelo menos assim não preciso usar os dentes que, podres, esfarelaram.

 

A bebida indigesta, os cacos de dentes engolidos por descuido, o que o ônibus cortou. Se você soubesse como tudo isso fermenta quando está junto... Incomoda. E não é só a mim. Eu choraria se pudesse, juro. Mas é tão confuso. Quando menos espera a gente acha que tudo está criando braços: os copos, os alfabetos, meus irmãos, minha vida. Fingem que me abraçam quando, na verdade, me estrangulam.

 

Porque não eram palavras que eu queria. Palavras são presas num papel, palavras não voam, não se beijam. E é preciso de algo que voe e se beije. Nesses tempos, nada é mais importante.

 


Escrito por Débora Ferraz às 12h36
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28/07/2008

 

As fadas estavam plantadas no vasinho. Algumas cresciam bonitas e voavam baixo presas pela raiz, a terra alimentava todas e nos alimentava juntas. Eu e Gertrudes, espremidas nos dias do calendário a gente fala sussurando. Faz mais de um mês que Dorge deixou a gente aqui com as maldições mais bestas. A gente se debruça uma na outra, olha em volta, olha pro céu. O tempo passou em círculos dessa vez. As fadas retorcem, as folhas secam.  As fadinhas esquecem de respirar, a gente vai estendendo a língua. Escorrem as gotas de mel da boca de Gertrudes. Pingos delicados. Entra, linda, que já vai chover. Tem feito tanto vento que até as verdes acabam sendo arrancadas, as fadas não secam mais. Elas assopram formas imaginárias no ar, através delas a gente caminha pra encontrar os pertences.

Gertrudes também não se importa, já aprendeu a conviver com mistérios_ idosas nós duas_ e juntas, nem chegamos a ter trinta.


Escrito por Débora Ferraz às 17h26
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12/07/2008

 

Eles nunca lembrariam de desobedecer”

Clarice Lispector

 

 

 

Quatro histórias

 

Essa história começa assim: Minha mãe havia esquecido o cigarro aceso e eu não conseguia apagá-lo. Ela fuma desde muito antes de eu vir ao mundo. Eu não. Eu detesto cigarro.

 

Segue-se que o cigarro estava aceso perto de mim. No chão. E é claro que o cheiro ruim estava me dando dor-de-cabeça. Veja você: Um cigarro inteirinho com a brasa bem vermelha. Puta que pariu. Como é que, infernos, ela me deixa aqui com esse cigarro inteirinho? Por que não fumou logo essa droga toda? Dou me ao árduo trabalho de consertar o mal-feito. Será que ela pensa que essa merda é incenso que a gente deixa queimar inteiro, assim, por nada? Mas veja você: Eu não fumo. Eu não sei apagar uma porra dum cigarro.

 

A segunda história é a seguinte: Tocava Cartola. O mundo é um moinho. Eu pensava displicente em algum filme do Denzel Washington. Acho ele dentuço. O Denzel, não o Cartola. Repare na intimidade com que chamamos os atores de Holliwood. Uma dor-de-cabeça intensa começou a surgir no canto esquerdo superior da cabeça. Bem atrás do olho. Algo me incomodava. Olhei pra trás procurando o que fosse: um cigarro aceso no chão. Minha mãe fuma holliwood.

 

Puta que pariu! Será que ela não podia ter, pelo menos, a consideração de apagar essa merda?

 

_Mãe?

 

Percebo que estou sozinha em casa. Vou ter que apagar o cigarro. Então faço como vejo fazerem nos filmes. Imprenso a brasa contra o chão. O negócio entorta. Mas eu só pioro as coisas, ele não apaga. Ela fuma holliwoods porque a telelevisão dizia que era o cigarro do sucesso. Ela é sucesso.

 

Já apaguei cigarros outras vezes. Mas eram só bitucas. Ela costumava adormecer com os danados entre os dedos. Qualquer dia ia acabar pondo fogo em tudo.

 

“Quando notares, estais a beira do abismo”

É uma música bonita. Minhas esperanças vão acabar virando cinzas. Fumadas. Mas como eu estava falando, O Denzel washington. Conheço gente que morreria pelo Denzel Washington, mas nos filmes ele é quem vive se arriscando. Estou sozinha em casa com um cigarro que não consigo apagar.

 

Tem ainda uma terceira história. Ouve-se um som incomum vir do teto. Um ladrão? Se for, eu já tenho um recurso: posso suborná-lo com o cigarro. Já está aceso e tudo. Aí ele fica relaxado. Desiste de me roubar e a gente assiste filme no dvd. A gente, que eu digo, é eu e o ladrão. Não eu e você aí. Ele vai querer ver os do Denzel Washington e eu preferiria ver Amélie Paulain. Mas ele está relaxado, acabou de fumar o sucesso da minha mãe, consigo convencê-lo. Lá pelas tantas, ele diz: “ei, mas esse filme é uma merda.” Atira em mim e vai embora. Muito puto. O efeito do Holliwood havia passado e onde está o Denzel Washington quando mais se precisa dele?

 

Mas era só um gato acasalando. Não tem ladrão.

 

_Será possível que vou ter que fumar eu mesma essa bosta só pra ver se ele se acaba? Vira uma bituca e eu apago imprensando contra o chão o restinho de brasa?

 

Ela sempre esquece de fumar os cigarros até o final. Há muita dificuldade de encarar os fins. Vêm tentando ler os mesmos livros. Foi lendo-os e abandonando pela metade na prateleira. Tenho sempre que lê-los inteiros. Terminar as coisas que ela deixa pela metade. Mas fumar também é foda.

 

A quanta história inicia quando percebi: Aquilo nunca foi um cigarro.

 


Escrito por Débora Ferraz às 15h22
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30/06/2008

resenha

Jornalismo Investigativo: O caminho das pedras

Repórter premiada participa de aula especial na UFPB

 

A afirmação primeira: “É preciso querer ir mais longe.” Foi com esta frase que Henriqueta Santiago, repórter premiada e convidada do dia, abriu seu discurso e resumiu, com ela, o lema do Jornalismo Investigativo.

 

A aula especial promovida pelos alunos de jornalismo do quarto período da UFPB foi realizada na sala Aruanda nesta segunda (30 de junho) pela manhã e convidou a jornalista para falar dos seus métodos de investigação e apuração de reportagem.

 

Depois de exibir o vídeo no qual recebia o primeiro lugar do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, Henriqueta mostra o caminho das pedras: fazer sempre mais que determina a pauta. Citando seus trabalhos e Ilustrando cada dica com suas experiâncias nos bastidores da reportagem, ela sustenta uma posição firme: “Vim aqui pra estimular e pra falar no que acredito. Porque pra desestimular já tem gente demais”

 

Defendendo a profissão com notável paixão e batendo, incansável, na tecla de que o jornalista tem responsabilidade social, Henriqueta levanta uma bandeira: fazer jornalismo com investigação, seriedade e ética.

 

Dicas de Henriqueta:

  • Procurar sempre o novo. Mesmo tendo como pauta um assunto já muito desgastado, Cabe ao repórter usar a criatividade e procurar o que ainda não foi dito sobre o assunto.

 

  • Prevenir-se para as dificuldades de verba. Economizando sempre ao máximo o que a redação dispôs.

 

  • Ao entrevistar uma fonte, um bom repórter faz perguntas até que o assunto se esvazie. Às vezes, tomando o mesmo depoimento mais de três vezes. Quanto mais se pergunta, mais possibilidades surgem dentro da mesma história.

 

  • Tempo curto rima com excesso de dedicação. Henriqueta diz que o jornalista deve ter, antes de tudo determinação e dispor-se a pesquisar muito nas horas vagas, pois o trabalho é sempre muito e os prazos sempre curtos.

 

  • É preciso ter sensibilidade porque isso é o que vai puxar o melhor de cada história. Uma responsabilidade cuidadosa, inclusive. Porque às vezes é preciso atentar que o jornal se alimenta de histórias humanas e por trás de cada história humana há muitos lados importantes de considerar antes de expor alguém.

 

 

 


Escrito por Débora Ferraz às 21h17
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08/05/2008

crônica

Do que eu também tenho medo

 

Eu tenho caminhado muito todos os dias. Agora, as coisas acontecem noutra freqüência e, pra dar tempo, eu caminho. Procuro os ônibus que vão partir rápido, salto deles, caminho mais, parto mais. Parto a cidade inteira com meu caminho. Vou picotando e cortando tudo.

 

Uma senhora me abordou hoje cedo. “Mas como você parece com minha sobrinha”. Acho um saco parecer com outras pessoas. “É mesmo?”_ finjo um interesse. Sempre é assim, afinal, vai saber se a sobrinha dela não é, de repente...

 

Eu tenho caminhado. As bolhas nos meus pés aumentam de número e eu já não as conto. A senhora parecia aflita na sua espera; por isso eu não espero, eu caminho. Dói, mas a gente esquece a dor e a aflição e um monte de coisas porque tem que prestar atenção pra cruzar a rua, para não ser vista, para escolher o caminho.

 

Também não tenho seguido o calendário lunar. Será mesmo que essas nossas escolhas são reais? A lua está nova. Eu sei porque sinto alguma coisa nascer, mas é assim... acho que, em determinado momento, a gente acaba virando silêncios. Nossos próprios silêncios. E este sempre é o momento mais bonito.

 

“Mas se parece muito. É impressionante!”_ continua a velha e passo a me questionar se eu não seria, de fato, a sobrinha da dela, mas que havia me distraído nas luas, nos asfaltos que havia esquecido de ser a pessoa certa e me ocupado, veja você, com uma vida que nem minha era. Essa vida errante. Senhoras e senhores, eu agora ia ser outra pessoa.

 

Mas não. É só que esse povo não sabe ficar quieto. Sorrio amarelo para a mulher sem saber o que se diga.

 

Digo que vamos todos virar silêncio porque não há nada que nos represente melhor  do que os momentos em que conseguimos ficar em silêncio. Cada um com a sua quietude, juntando com a quietude dos outros e sem que ninguém se apavore com isso.

 

Tenho sentado em meios-fios, beijado rostos suados, me abraçado com panos limpos. Eu tenho andado sentindo, eu tenho pensado demais.

 

Eu tenho sentido que o sentido se dá sozinho.

 


Escrito por Débora Ferraz às 15h10
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29/04/2008

Por acaso, me cortei com as páginas dos contos que escrevia. E foi bem-feito pra mim pra deixar de ser pretensiosa achando que posso me envolver com esses tantos papeis sem que eles me façam mal. É papel pra tudo. Papel de desenho, papel pautado, papel de otário, papel machê, papel escrito, papel de presente. É tanto papel pra dar conta que uma hora, inevitavelmente eles dão conta da gente.

 

Eu tinha percebido que eu mesma cheiro à papel. Aquele cheiro insosso de papel... ou quando sabemos: roceiros são aproveitadores. A gente esfrega bem a pele nas páginas perfumadas da revista, pessoas assim dão facilmente reconhecidas pelos cortes que ficam no pulso quando acidentalmente...

 

Pessoas de papel e os seus cortes metafísicos.

 

E de todo jeito a gente se orgulha... “são cortezinhos finos_eles diziam_. Mais poéticos que doloridos”, davam gastura. Briguei com os papéis. “Vocês têm que sumir!”. Se pudessem estampariam em suas páginas tamanha a desfeita. Permaneceram mudos e humilhados. Mas não somem só no momento certo. Pois bem então. Eu deixava-os entrar, não tinham licença, mas entravam assim mesmo, além de desgraçados eram orgulhosos!

 

“Eu odeio me cortar com papel!” dizia eu pra eles como se fosse alguma novidade ou como se fosse eu a vítima, visto que eles eram quem saiam com manchinhas do meu sangue aquarelado e quase amarelo. Como se me dissessem que eles eram quem deviam gritar comigo. E bem alto.


Escrito por Débora Ferraz às 21h10
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16/04/2008

Olhos

 

Os lábios que engarrafavam cada mililitro daquela dor gustável. Eram plenas oito da noite e não era mais hora de sentir nada. Os olhos fixos na tela, a coca-cola descendo doce pela garganta.

_Acha mesmo que este filme vai prestar?

_Claro que vai!

Os pedacinhos da minha fragilidade infantil haviam começado a fazer silêncio na sala escura. Onze anos e nenhuma confissão. O cinema estava gelado, e o filme não começava.

Uma coisa começou a crescer em mim, bem ali dentro do peito, que a principio me deixava numa sensação esquisita de estar muito dentro de mim mesma. Como se minha alma tivesse ficado menor a ponto de ficar sacudindo dentro do corpo por causa da folga, e eu compensava tentando ser mais compacta, me comprimindo e me esforçando pra ficar menor. Comecei a tremer e aquela coisa em mim passou a ser um frio que eu sentia especialmente nos lábios, nos olhos e bochechas. Pouco a pouco a temperatura ia ficando mais baixa e as luzes apagando.

 

Apagou. E quando voltou eram dois faróis de carro que de súbito me cegaram. Uma buzina estridente gritava como se fosse o fim. Foi quando o desespero me invadiu, porque o carro não parava, ele adiantava na minha direção e eu estava ficando mais fria, mais cega, mais surda. Enquanto a coca-cola ainda não descia eu me perdia na vertigem. E agora?! Estou desmaiando!

 

Acordei com os olhos abrindo tão rápido que conseguiram assimilar muito rápido a realidade: A tela ainda a minha frente, o filme ainda não havia começado.

_Está tudo bem, Carol?

Eu não podia dizer que havia cochilado.

_Tudo bem. Só não tenho certeza sobre esse filme, eu acho que não é bom.

Não era. Ou eu não era boa para o filme. Era uma história irresponsável de amor: Era uma louca, uma paixão, uma quarto, uma fuga, um homem... mas, uma coisa era real, apenas uma: Os olhos da protagonista. Os olhos da louca que estavam cheios de promessas, e de loucura, claro. Os olhos eram castanhos. Já alguma vez você viu olhos que pediam tudo? Pois os olhos dela pediam tudo. E eu tive vontade de dar tudinho mesmo à louca. Meu ângulo fechava neles. Meus olhos se apertavam prestando a atenção, ficando pequenos, e ainda menores, e fechando... dentro dos meus olhos, bem ali dentro das pálpebras eu vi os olhos dela. Redondos e em tom de amêndoa. “O que vocês querem, olhos?” enquanto eu passeava por um quartinho minúsculo chamado pensamento.

 

Quando abri os olhos de novo a louca estava colando recortes de olhos por toda a parede.

Revistas recortadas e olhos por todas as partes. Olhos grandes, pequenos, azuis, chineses, olhos, e mais olhos, um milhão de olhos em torno deles. 

_Eu já terminei aquela parede e estou quase terminando esta. Disse chorando. É pra eles olharem por nós e nos protegerem.

Mas não consegui conter os meus que se fecharam de novo. Eu entrei dentro do quarto, com olhos diferentes por todas as partes. Pra onde eu olhasse haviam olhos. Olhos pra tudo: Pra condenar, pra cuidar, pra proteger, pra matar. E não adiantava mais fechar os meus. Eu estava dentro do filme com todos aqueles olhos espalhados. Um cubo sem porta, só com olhos dos quais eu não podia fugir, havia olhos debaixo dos meus pés, acima da minha cabeça, à esquerda à direita, me oprimindo, me deixando tonta, girando ao meu redor. Dando náusea, dando vertigem, dando tudo, sugando tudo.

 

Só sei que quando acordei de novo, a minha infância havia acabado junto com o filme. Eu havia entendido o que era mundo.


Escrito por Débora Ferraz às 22h35
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14/04/2008

Primeiras Palavras

Primeiras Palavras

Em um determinado período da minha vida eu me calei. Não se sabe como ou porque. Não foi de propósito, simplesmente me calei como calam todas as coisas profundas.  Os dedos endurecidos, o meu corpo rarefeito através das coisas, das linhas, dos textos que abril vai tomando de mim. A fina camada de gelo cobrindo. Emudeci. Enquanto a vida se dá, muda, o ar ficando mais viscoso, os pedaços desordenados pesando. Não fosse a mudez eu gritaria com tudo isso, eu pediria com gentileza desesperada "por favor, parem de engrossar, empelotar, ficar pesando nos meus poros e garganta. Dissipem-se", Eu ancorada no espaço, comendo demência. Comendo demência no automático até não aguentar mais. "Párem que isso chega a ser falta de educação." mas os olhos se tornam maiores e maiores e vão crescendo. Eu crescendo junto, sem limite, sem dor, e o silêncio ecoando por todas (eu disse todas) as paredes, e eu com medo de crescer demais, explodir e voarem os estilhaços. Vai sobrar pra todo mundo.


Em um determinado período da minha vida eu me calei. Logo eu. Parecia piada, sem graça nenhuma. Coisa mais estranha. Porque certo era resistir.

E como num rompante, existir.
Estou viva, e é no grito.
Até porque esse mundo precisa mesmo é de barulho.


Escrito por Débora Ferraz às 22h09
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testando...


Escrito por Débora Ferraz às 20h06
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